19 de mar de 2018

Desabafo | Sobre a Timidez

Uma vez me disseram que eu deveria expor o meu problema para que as pessoas se fizessem mais empáticas e me recebessem de modo menos crítico. Sem saber que não era tão fácil e "real", eu ouvi o conselho e acabei perdendo as contas das vezes que senti a necessidade de dizer: “Desculpe, eu sou tímida”. Passei tanto tempo precisando me justificar para os outros por não saber lidar bem com situações “comuns” aos grupos sociais -mas nem por isso fáceis para minha confusa mente- que cheguei ao ponto de me odiar e acreditar verdadeiramente que não era boa o suficiente. Enquanto isso, a imagem que eu passava de antipática, antissocial, metida, arrogante, estranha, já estava bem fixa para muitas das pessoas que me rodeavam e conviviam sem substancial interação.


É possível que muitas crenças me bloqueiem, é óbvio que eu não desenvolvi, como muitos aprenderam na infância, a superação daquela primeira barreira que acontece ao ver um conhecido ou desconhecido na rua e simplesmente demonstrar-se presente com uma palavra ou um gesto. Não treinei o suficiente para ser aquilo que todos esperavam: acessível, simpática, clara e sociável. Mas nestes tantos momentos comigo mesma, a busca por compreender minhas apreensões e os anseios do mundo externo, assim como a realização dos meus passos sedentos por expressão, me possibilitaram descobrir que não adianta me justificar, pois a ação é o que realmente conta nesse intenso e imediato modo de viver contemporâneo. O mundo é feroz com quem não segue a linha e a competitividade não é só no campo do trabalho, mas em todas as relações sociais; nos estudos, na academia, na TV, na vida toda!


Já ouvi muitas vezes que não pareço tímida e a última vez que me disseram, veio seguido de: “se fosse tímida, ainda estaria na casa da sua mãe e não morando sozinha do outro lado do mundo”. Essa afirmação, tão convicta como se me lesse sem pestanejar, mas tão superficial e rasa como todas as outras já recebidas, me fez -uma vez mais- concluir que as pessoas não ligam de verdade se você tem uma limitação: elas se contentam com aquilo que “PARECE”, o que aparenta ser... a típica “primeira impressão” ou até segunda, terceira, décima... pois este é o mundo em que se você é normalmente sociável e passa por um dia ruim, tem que fingir harmonia e distribuir sorrisos pra não parecer “chato”.



Talvez alguém precisasse dizer -e eu me encarrego hoje a fazê-lo- que pessoas mais introspectivas, aquelas menos sociais ou as que tremem/gaguejam frente a um grande público, nem sempre são terríveis em comunicar-se com grupos menores, nem sempre no íntimo são tão inseguras e eu diria que quase NUNCA deixam de se relacionar por opção, mas por uma condição criada pela mente: uma limitação profunda gerada por medos e crenças, por um ego opressor que bloqueia o corpo e sabota todas as situações possíveis. {Mas quem liga para explicações psicológicas, não é?}


Mesmo assim eu continuo.
É preciso entender que para se dizer tímida, uma pessoa não tem que necessariamente andar de cabeça baixa, falar “miando” e se esconder do planeta para provar sua timidez. Juro que não!! E as vezes até acontece o contrário: Muita gente consegue vencer diariamente seus monstros internos e cria o hábito de conviver mais com o mundo de fora. Algumas destas, quando você senta pra conversar, te dizem que são super tímidas {e você nem esperava!}. Outros não sabem como interagir pessoalmente, mas pela internet as pressões diminuem e a conversa flui naturalmente...
Então, será que aquelas pessoas "fingem muito bem" ou você que não foi sensível o suficiente para enxergar?


É importante lembrar que cada um tem um modo de ver o mundo e a timidez pode impedir um indivíduo de fazer coisas que outros consideram banais, podendo gerar graves problemas de isolamento social e depressão!


Se alguém está em busca de deixar os padrões “negativos” da timidez e um dia confessa para você este ponto fraco, muitas vezes essa pessoa está pedindo paciência, pois com ela as coisas acontecem em um tempo mais lento. Compreenda! O potencial de relacionamentos dos seres humanos é igual e natural em todos, mas cada indivíduo possui suas particularidades e seu tempo para descobrir suas próprias habilidades.



Eu digo por experiência. Há dez anos eu encontrei no meu blog um modo de me expressar, escrevendo coisas para gritar o que eu não dizia e fazendo fotos para tentar enfrentar meu primeiro obstáculo: o expectador. Ainda não foi o suficiente, na verdade, pois o mundo virtual se tornou um subterfúgio. E talvez eu tenha criado aí um personagem, uma pessoa que se expressava por imagens e textos, mas não sabia como cumprimentar alguém ou onde pousar as mãos durante um momento corriqueiro.


Talvez ter vindo para longe tenha sido um desafio íntimo e uma prova a mais para eu finalmente acreditar na minha capacidade. Porque sim, parece simples ver de fora, naquela percepção superficial e despretensiosa de quem só está aí pra julgar. Mas eu sei quais são as dificuldades que encontro e eu encaro todos os dias um mundo novo, sobre situações extremas que não me permitem fugir para o acomodo das minhas habituais justificativas.


E sabe, eu não sinto mais a necessidade de me justificar porque sei que não fiz nada de errado. Mas para algumas (muitas) pessoas, individualmente, eu gostaria de me perdoar por não ter sido uma colega de sala ou "conhecida de vista" melhor. {Então, Hey! Se eu não falei com você por um corredor qualquer, eu sinto muito! Saiba que Por dentro eu falei mil vezes, mas minha voz não saiu. Eu me distraí dentro da ideia de como deveria fazer para ser o melhor possível naquela situação de poucos milésimos e a minha reação foi retardada... meus olhos se perderam, apesar de eu querer mantê-los firmes junto à minha voz direcionados a você ao dizer “oi! Bom dia! Boa tarde! Ótima semana!"... Me perdoe! Eu sou grata porque você ficou guardado na minha memória e hoje eu posso contemplar aquele momento como um reflexo do que eu posso superar no dia a dia. Eu até entendo que você tenha me criticado, pois eu o fiz de forma muito mais feroz naquele e nos próximos instantes, mas agora eu estou aprendendo!”}.


Eu, como qualquer pessoa que possui limitações sociais -e eu acredito que todo mundo as tem em algum grau-, sou uma pessoa comum, disposta a aprender e melhorar, sociável em grupos menores e segura em alguns pontos mais particulares. Já não me rotulo tanto, me cobro de uma maneira menos rígida e neste momento gostaria de encorajar todas as pessoas que também sofrem ou convivem com a timidez. Parem de se culpar! Parem de se justificar. Aproveitem um tempo de introspecção para um verdadeiro mergulho em si mesmos. Conhecendo-nos profundamente poderemos nos amar e nos abrir de forma amorosa ao mundo, afinal somos seres relacionais e precisamos uns dos outros para  conviver, aprender amar e viver. Eu também estou aprendendo... Não é tarde!


Se alguém que chegou ao fim desse texto já conseguiu, está no processo ou quer alcançar essa mudança, saiba que eu vou adorar ouvir suas experiências, trocar ideias e começar essa interação junto com você! We can grow up together! Nós podemos florescer juntos! 😊🌷😘

6 comentários:

  1. Ola, eu tal como tu sou muito tímida quando era mais nova era bem pior nao conseguia falar com ninguém e fugia de todo o tipo de interacção social que podia e passava horas atrás de horas sozinha no meu quarto a frente do computador simplesmente no meu próprio mundo e eu adorava isso e ainda adoro ahah.
    Mas com o tempo e também mudar de pais ajudou-me imenso a ultrapassar esse obstáculo sou uma pessoa muito divertida e aberta para as pessoas que conheço mas continuo uma pessoa envergonhada com pessoas desconhecidas e demoro um pouco para me abrir e já passei por diversos comentários que era uma arrogante ou uma snob ou que nao gostava de ninguém mas nao tem nada haver as pessoas e que gostam de julgar os outros.. mas tal como disse,com o tempo tudo passa e alem disso aprendi a estar bem comigo mesma e aceitei-me como eu sou.

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  2. Lindo texto, Clara. Concordo com você de que todos têm, em algum grau e/ou contexto, dificuldade em lidar com a timidez. Ninguém é seguro em todos os momentos, mas todos somos capazes de enfrentá-las e nos desenvolver, cada um em seu tempo.

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  3. Oi Clarinha, vim deixar minha contribuição, primeiramente afirmando o quanto gostei do seu texto, segundo, te dizendo que você é ótima, que você é super expressiva com fotos e textos e essa é a sua forma de trabalhar e te torna diferente, porque torna o teu trabalho especial. Veja bem, quem vem te acompanhando nota sua timidez, e pra alguém tímido ainda assim você se deixa disposta a receber críticas, não acredito que deva ser fácil escolher a foto certa por exemplo, e ainda assim tem sempre alguém que não se agrada. Algumas pessoas também usam a crítica apenas para atacar mesmo.
    A falta de empatia é o mal do ser humano. Eu sempre fui um pouco tímida, mas por um tempo eu desenvolvi uma fobia social, eu não conseguia falar com as pessoas, fazer novos amigos e já estive em situações em que minha mãe precisou ir pra faculdade junto a mim porque eu simplesmente não conseguia nem estar em uma sala de aula lotada. As pessoas entendiam quando eu chorava e saia correndo no meio da aula? Não, isso virava motivo de piada e críticas. Todos os dias era um desafio novo. Eu consegui vencer pra poder caminhar pra frente na vida, pra poder conseguir trabalhar e me relacionar.
    Clara, já não é fácil lidar com algumas situações que se tornam até frustrantes, e é de grande importância o desabafo e os ouvidos fechados para as pessoas que não vem somar porque são só pedras a mais no meio do caminho.

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  4. Oi Clara, a falta de empatia das pessoas nunca cansa de me surpreender. Porque atacar uma pessoa assim, à toa, muitas vezes sem nem ao menos conhecê-la? Surreal demais. Com certeza você não precisa se justificar, não fez MESMO nada de errado. Um beijo querida ~ e fique bem! :*

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  5. Nunca me identifiquei taaanto com um texto. Que maravilhoso!!!
    Você disse tudo, Clara. As pessoas só sabem julgar e acham sempre que nos conhece muito bem, achando constantemente que somos bravas e antipáticas, e no final das contas apenas não conseguimos "desenvolver" um assunto ou um simples sorriso apenas pela timidez. Mas no final das contas o que importa para nós são apenas os desafios cumpridos e nada mais.
    Meu próximo desafio é ir pra Londres visitar minha irmã, e o nervoso que da é enfrentar o aeroporto rsrsrs, coisa simples, mas que a timidez complica.
    Adorei!! Grande Beijo

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  6. Texto maravilhoso, Clara! Me indentifiquei demais. Sou timida tambem, e cada dia é uma luta contra isso. Mas respeito os meus limites, e me amo da forma que sou, independente do que os outros pensem! ❤ obrigada pelo post.

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